No terreno baldio que ficava entre dois prédios no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, havia lixo, entulho e, nos fins de semana, às vezes violência. Hoje há alface, coentro, cebolinha, tomate cereja e, toda terça e quinta de manhã, um grupo de cerca de 30 pessoas que se reúne para cuidar da horta e, sem que percebam, cuidar umas das outras.
A Horta do Ângela é uma das mais de 200 hortas comunitárias cadastradas na cidade de São Paulo. Mas o número real é provavelmente o dobro — muitas funcionam informalmente, sem apoio institucional, sustentadas apenas pela vontade dos moradores.
Mais do que Comida
O que chama atenção em quase todas essas iniciativas é que a produção de alimentos, embora importante, raramente é o principal benefício relatado pelos participantes. O que as pessoas valorizam é o encontro, a rotina, o senso de pertencimento.
"Antes eu ficava em casa o dia todo, sem falar com ninguém", conta Dona Maria, 68 anos, que participa da horta há três anos. "Agora tenho um motivo para sair, tenho amigos, tenho algo que depende de mim."
O Papel das Prefeituras
Algumas prefeituras começaram a reconhecer o valor dessas iniciativas e a oferecer suporte — cessão de terrenos, fornecimento de mudas, capacitação técnica. São Paulo tem um programa específico para isso; outras cidades estão começando a desenvolver políticas semelhantes.
O desafio é apoiar sem burocratizar. Hortas que funcionam bem geralmente têm uma lógica orgânica de organização que pode ser sufocada por exigências administrativas excessivas.